quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Crise neoliberal e sofrimento humano

Leonardo Boff *
Adital - http://www.adital.com.br/


O balanço que faço de 2010 vai ser diferente. Enfatizo um dado pouco referido nas análises: o imenso sofrimento humano, a desestruturação subjetiva especialmente dos assalariados, devido à reorganização econômico-financeira mundial.
Há muito que se operou a "grande transformação" (Polaniy), colocando a economia como o eixo articulador de toda a vida social, subordinando a política e anulando a ética. Quando a economia entra em crise, como sucede atualmente, tudo é sacrificado para salvá-la. Penaliza-se toda a sociedade como na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Espanha e mesmo dos USA em nome do saneamento da economia. O que deveria ser meio transforma-se num fim em si mesmo.
Colocado em situação de crise, o sistema neoliberal tende a radicalizar sua lógica e a explorar mais ainda a força de trabalho. Ao invés de mudar de rumo, faz mais do mesmo, colocando pesada cruz sobre as costas dos trabalhadores. Não se trata daquilo relativamente já estudado do "assédio moral", vale dizer, das humilhações persistentes e prolongadas de trabalhadores e trabalhadoras para subordiná-los, amedrontá-los e, por fim, levá-los a deixar o trabalho. O sofrimento agora é mais generalizado e difuso afetando, ora mais ora menos, o conjunto dos países centrais. Trata-se de uma espécie de "mal-estar da globalização" em processo de erosão humanística.
Ele se expressa por grave depressão coletiva, destruição do horizonte da esperança, perda da alegria de viver, vontade de sumir do mapa e até, em muitos, de tirar a própria vida. Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam a competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis, infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico. Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às sobrecargas do trabalho.
A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano passado, numa pesquisa ouvindo 400 pessoas, que cerca de um quarto delas teve ideias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: "é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas". Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo e orientado para a maximalização dos lucros. Uma pesquisa de 2009 feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego. Os gestores atuais mostram-se insensíveis ao sofrimento de seus funcionários, acrescentando-lhes ainda mais sofrimento.
A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde Diplomatique de novembro do corrente ano denunciou que entre os motivos das greves de outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava: "metrô, trabalho, cama", atualizando-a agora como "metrô, trabalho, túmulo". Quer dizer, doenças letais ou o suicídio como efeito da superexploração capitalista.
Nas análises que se fazem da atual crise, importa incorporar este dado perverso que é o oceano de sofrimento que está sendo imposto à população, sobretudo, aos pobres, no propósito de salvar o sistema econômico, controlado por poucas forças, extremamente fortes, mas desumanas e sem piedade. Uma razão a mais para superá-lo historicamente, além de condená-lo moralmente. Nessa direção caminha a consciência ética da humanidade, bem representada nas várias realizações do Fórum Social Mundial entre outras.

[Autor de Proteger a Terra-Cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record 2010].

* Teólogo, filósofo e escritor

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

'Transformaram a Câmara numa churrascaria', diz Aldo Rebelo

deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) fez nesta segunda-feira (27) sua crítica mais dura ao acordo de rodízio entre o PT e o PMDB para presidir a Câmara dos Deputados nos próximos quatro anos. “Transformaram a Câmara em churrascaria. Esse rodízio só serve a dois senhores: o PT e o PMDB”, disse o comunista ao iG. Cotado como candidato pelos colegas, ele nega.
Apesar de negar sua candidatura ao comando da Casa, Aldo é visto como o principal articulador do lançamento de um nome da base aliada ao governo para disputar a presidência da Câmara contra Marco Maia (PT-RS). O deputado comunista disse também ao iG que já tratou do assunto com a presidenta eleita Dilma Rousseff.
A conversa ocorreu na semana passada quando Aldo participou de um jantar realizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada para os ex-ministros - Aldo foi ministro da Articulação Política (2004-2005). Segundo ele, o próprio Lula e futuro chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, participaram da conversa sobre a disputa na Câmara.
“Eles vêem com preocupação a disputa na Câmara”, disse. O deputado contou que não foi questionado ou convencido a desistir da ideia. “Mas não me perguntaram nada. Fui eu que disse a eles. Falei que (a base governista) pode ter duas candidaturas”, completou Rebelo, que conversou com o iG por telefone nesta segunda pela manhã.

Aldo Rebelo foi presidente da Câmara entre setembro de 2005 e janeiro de 2007, depois que o então deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) renunciou ao posto e ao mandato após sofrer denúncias de cobrança de propina do dono do restaurante da Casa. Ele tentou a reeleição em fevereiro de 2007, mas acabou derrotado por Arlindo Chinaglia (PT-SP) que ganhou o apoio do PMDB na época.
Aldo nega que seja candidato contra Marco Maia, deputado escolhido pela bancada do PT para disputar o cargo. Na semana passada, o petista conseguiu o apoio dos líderes de oposição (DEM e PSDB). Aldo, no entanto, afirma que há um grande número de deputados insatisfeitos por terem sido excluídos da decisão sobre o nome de Maia.

“Não sou candidato. Decidimos que vamos fazer um amplo processo de consulta com todos os deputados. Vamos apresentar um projeto. Sabemos que há uma grande insatisfação”, disse Aldo. “Agora, é um processo precoce. A situação é muito difícil porque a candidatura do PT é muito forte. Ele também conseguiu o apoio da oposição”, completou.
Aldo disse não ter nada contra Maia. “É um bom nome. Não estamos discutindo isso. O problema é que esse rodízio (com o PMDB). Presidência da Câmara não é ato de nomeação. É eleição”, disse. “Não podemos excluir 360 deputados de um processo de escolha”, completou, referindo-se ao número de deputado que não é do PT ou do PMDB.

Matéria: ig último segundo



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